
Fiquei um preocupado com as declarações que li recentemente de editores e livreiros brasileiros, sobre o mercado de livros e de forma direta e indireta os impactos do Kindle (e de outras formas possíveis de se ler um livro, sem usar papel). Fiquei pensando: esse pessoal está caindo no engano mais antigo do marketing: a miopia de marketing.
Leia abaixo alguns recortes meus:
Livreiro Rui Campos, dono da Livraria da Travessa (que na minha opinião é excelente, talvez a melhor do RJ):
O best-seller é o motor, o financiador, o viabilizador do mercado livreiro (autor, editor, distribuidor etc). Sem o best-seller esse mercado não se sustenta. Ele permite a uma editora ou livraria seguir apostando em uma variedade de títulos de venda lenta, (os bad-sellers, ou os midi-sellers!), pois estarão sendo financiados pelos best-sellers. Note-se que nem sempre ou raramente um livro nasce best-seller! É preciso apostar e isso leva à diversidade e pluralidade que são, em suma, a nobre missão do livro.
Essas abaixo foram da matéria do Globo, onde dei entrevista também. O link é do site Madia Mundo Marketing, que também fez uma análise interessante.
Roberto Feith da Objetiva:
“Eu não acredito que os livros físicos vão acabar. A experiência de manuseio e leitura do exemplar impresso é agradável. E, além da vantagem sensorial, o aparelho digital custa dinheiro. Nesse sentido, o livro é diferente da música, em que as pessoas trocaram um tocador de CD por outro aparelho, como um iPOD, mais portátil e capaz de baixar músicas da WEB. Mas o livro físico já é portável e não exige um aparelho para ser degustado…”
O diretor-presidente do Grupo Editorial Record, Sérgio Machado:
“A vitória do KINDLE pode ser a morte do ato de lançar livros. O desejo de adquirir um livro desconhecido passa pelo físico, pela conveniência, pelo boca a boca. Para mim os livros físicos só acabariam se imaginarmos uma sociedade estática em que não houvesse mais lançamentos, porque todas as obras já foram escritas…”
Minha avaliação
O Kindle, ou qualquer outra forma que facilite a leitura, ou o acesso a obras e escritos, novos ou velhos, vai facilitar e muito o lançamento de novos títulos. Isso já está acontecendo.
Hoje eu posso comprar um livro na Amazon para o Kindle, lançado hoje e recebê-lo e começar a ler nesse instante. Sem demora, sem perda do correio, sem custo de frete. Se isso não for facilidade, o que é?
Outra grande mudança. Se você quiser lançar um livro que escreveu e “ninguém vai ler”, pode fazer de forma muito fácil pela Amazon e ainda ganhar uma comissão de 35% por livro vendido no formato Kindle (muito acima dos tradicionais 10%). Assim vai ficar muito mais fácil para qualquer pessoa lançar um livro, mesmo que ele não seja um best-seller. Essa tecnologia vai permitir a cauda longa realmente se efetivar no mercado de livros.
Vai tornar que livros com baixa demanda se tornem comercialmente bem sucedidos. Isso vai acontecer, porque hoje, depois de escrever um livro, há um custo enorme para colocá-lo na frente do consumidor, em cada livraria e ponto de venda. Com a tecnologia digital, depois de escrito, o custo para se editar um livro é praticamente zero. Isso vai mudar incrivelmente o mercado de livros, nos próximos anos, na minha opinião.
A grande mudança no mercado
A grande mudança no mercado de editoras e livrarias não é que menos gente vai querer ler livros. Muito pelo contrário, essas novas opções vão aumentar o número de leitores. Vai ficar mais difícil é ganhar dinheiro vendendo livros (como uma livraria) ou fazendo livros (como uma editora).
Infelizmente, me parece ao ler as declarações acima de editores e livreiros, que os brasileiros ainda não acordaram para essa nova realidade. Se você duvida, esse filme já passou, já é velho. Só é preciso olhar para a indústria da música com o download, MP3, ITunes store, etc.
Se eu fosse um livreiro ou editor a primeira coisa que eu faria: comprar um Kindle e ficar de olho nessas mudanças e começar a pensar: como vou ganhar dinheiro com livros nos próximos 5-10 anos.
Minha dica: vai ser muito diferente da maneira que é feito hoje, pela maioria das empresas. Isso já é uma realidade na indústria da música (triste para a maioria das empresas) e que pode ser infeliz para muitos da indústria dos livros, se dormirem no ponto.
Outros posts
Se você se interessa por esse tema, escrevi outros posts sobre o Kindle.
Amazon lança Kindle 2, mas com poucas novidades
Minha entrevista sobre o Kindle da Amazon, para o jornal O Globo
Como usar o Kindle Amazon no Brasil
Porque comprei um Kindle e minhas primeiras impressões, no Brasil
Conheça mais sobre
Os livros físicos, infelizmente, vão acabar. Não dura mais 10 ou 20 anos. O livro em papel se tornará artigo de luxo, será vendido caro, formatos sofisticados etc.
Em 10 anos 90% da população economicamente ativa de qualquer nível social terá um celular. O celular daqui 10 anos será um Kindle.
O livro está morto. Quem fala que não são pessoas de uma geração anterior. A nova geração, inclusive a minha, tá nem aí para o que seja um livro.
Ricardo
Miguel, não sei em quanto tempo, mas acho que esse mercado vai mudar muito mesmo. E o que está sendo apresentado me parece que é um novo meio para se chegar a um mesmo conteúdo. Não é a morte do livro, é a reformatação. Em vez de reagir “defendendo o seu” e a “tradição”, o importante é que editores e livreiros fiquem atentos a essa revolução e possam se renovar a tempo, remodelar seus negócios, se preparando para uma nova realidade. Não acho que será o fim dos livros em papel, mas que haverá uma redução deles… Agora vou ler seus outros posts, pois tô curiosa para saber se é agradável ler nesse aparelho!
Beijos e parabéns pelo blog, Maria Cecilia
Oi Miguel, tudo bem?
Eu acho que o kindle pode facilitar a leitura em alguns momentos, em viagens, por exemplo, mas pra mim, nada como um livro de papel, com aquele cheiro característico, e depois de lido, exposto na minha estante, colorindo a minha casa. Ver os livros todos juntos, ler as lombadas, algumas de ponta cabeça, é prazeroso pra mim. Organizar os livros por ordem de tamanho, cor, autor… tudo isso é prazeroso pra mim.
E quanto as anotações que fazemos nos livros? Como fazer isso no kindle? Alguns livros eu gosto de abrir em qualquer página e ler um parágrafo… como faço isso no kindle?
Claro que o kindle deve pesar muito menos do que um livro de 700 páginas, mas o manuseio do livro de papel é muito mais do que apenas ler (como no kindle). Pra mim é sentir a história, ficar segurando o livro, virando as páginas, em alguns até com dificuldade de dobrar a página para ler, fazer anotações nos cantinhos da página… dobrar a “quina” da página pra ver alguma frase depois…
Eu não acho que o o livro vai acabar (mesmo que o papel vire artigo de luxo), acho que o kindle veio para “somar” e como uma nova alternativa para leitura.
Não descarto “experimentar” o kindle, para saber do que se trata mesmo mas acho que eu ainda preferiria os livros de papel.
Bom, essa é minha opinião…. o que seria do branco se todos gostassem de preto, não é?
Um abraço.
Tatiana
Assocon
Miguel,
Concordo com suas colocações positivas em relação ao Kindle. Acabei de comprar a versão 2. Moro nos EUA há 5 anos e leio muito. Acredito que as grandes vantagens são a facilidade de comprar os livros (mais baratos) mas principalmente poder carregar muitos deles ao mesmo tempo. Isso é muito conveniente, principalmente para quem vive correndo de um canto a outro a toda hora.
Mas também gosto de ter minha biblioteca com livros “de verdade”. O Kindle não funciona bem para livros-texto, por exemplo. Se preciso consultar alguma coisa rapidamente, ele já não se torna tão prático assim.
Temos que aguardar para ver o que vai acontecer no futuro. Os mp3, mp4, etc vieram pra ficar (os cds que o digam)…mas até aí há alguns anos falavam que o papel também iria desaparecer…e tenho certeza que hoje muitos compram papéis A4, carta, etc em quantidades muito maiores do que há 20 anos (as árvores que o digam).
um grande abraço
Flavio Hirai
médico, leitor e fã de qualquer “cool gadget” que facilite nossas vidas
[...] Editores e livreiros: acelerem. [...]
Acredito que um gadget de leitura, tipo Kinlde, fará uma revolução no mundo da leitura. Vejo muitas opiniões que exaltam o cheiro do livro, a textura, e outros
detalhes que somente livros físicos tem. Entretanto, grande parte dessas opinições são de pessoas de 30 anos ou mais… os adolescente de hoje estão vivendo o mundo virtual de um maneira muito intensa. Eu mesmo que tenho mais de 30 só leio no laptop. Acho muito prático não ter que carregar diversos livros… Naturalmente a experiência de ler numa tela LCD de laptop deve ser bem pior do quê ler numa tela tipo Kindle.
Hoje já vemos uma grande inclusão social através da leitura através de computadores… Há diversos alunos que não tem condições financeiras para imprimir apostilas e livros e utilizam o computador para leitura desse material.
Imagina um equipamento desses custando 200 reais e sendo distribuído aos alunos de rede pública… imagina a economia de papel e o benefício ao meio ambiente, além da diminuição do custo dos livros.
Fico ansioso para possuir um equipamento tipo o kindle. Só fico aguardando um kindle colorido e que tenha conectividade aqui no Brasil, além de ter um browser para ler sites como o Google Reader, e também um leitor de
PDF nativo… seria excelente para começar. Acho que o Kindle DX já melhorou bastante… aquela tela maior é fantástica.
[...] Meu texto sobre livros e editoras. [...]
Miguel, depois vc me responde por e-mail por favor: eu acho q as livrarias nã odeixarão de ganhar dinheiro. Tá certo q os livros no e-book serão mais baratos, porém mais pessoas comprarão, então será mais gente comprando das livrarias. O que vc pensa?
Miguel. Achei bastante interessante seu blog. Nao sei definir ate quando os livros de papel irao resistir. No entanto eh verdade que um dia serah totalmente antieconomico produzir um livro em papel.
Isto nao me preocupa, muito pelo contrario. No entanto, nao entendo como os pequenos escritores poderao acontecer em um mercado tao restrito. Se tiveres uma solucao, gostaria de saber.
Olavo Paiva
Oi Olavo,
Acho que os escritores menos famosos terão mais espaço e mais chance de ganhar dinheiro com os livros eletrônicos.
Agora fica mais fácil, mais barato e mais rápido publicar seu livro. E você poderá até conseguir % melhores do valor de capa.
Abs, Miguel